Coluna

HIERARQUIAS EM XEQUE: DIVERSIDADE CORPORATIVA E ESTRATÉGIA

HIERARQUIAS EM XEQUE: DIVERSIDADE CORPORATIVA E ESTRATÉGIA

Por viny

TEMPO DE LEITURA: 7 MINUTOS

Sou apaixonado por xadrez desde criança. Costumava observar um de meus tios praticar e comentar sobre o jogo. Sonhava em um dia poder jogar com frequência, assim como ele. Fato é que apenas consegui realizar este desejo, após a internet e os aplicativos se popularizarem. E a sua prática tem me ajudado, ao longo dos anos, a pensar a diversidade corporativa de forma mais estratégica.

Hoje, me divirto utilizando o “Chess Time”, um aplicativo simples, sem projeções tridimensionais e grandes efeitos, mas que oferece estatísticas bem interessantes. Fornece com precisão um diagnóstico sobre o seu histórico de jogos e permite que você jogue com qualquer pessoa do planeta. 

Sempre recomendo o app por estas condições. E para quem se interessou e estiver afim de jogar uma partida comigo, é só me procurar por lá. Estou como Viny Belizário e será um prazer dividir o tabuleiro virtual com vocês. 

Sou um bom jogador? Acho que não! Mas como costumo dizer: “Eu brinco bem”. (risos). Mas o papo hoje não é sobre xadrez. Mas sobre a sua essência: a estratégia. Quero usá-la como metáfora para discutir um tema sobre o qual a minha prática é muito mais especializada do que quando estou atuando sobre os tabuleiros do jogo indiano: a diversidade corporativa.

fundo de pedra verde com tabuleiro de xadrez antigo simulando diversidade corporativa
Foto de Claire Thibault do Pexels.

Nestes quase 20 anos de atuação neste universo, uma das coisas mais comuns que identifico em minhas consultorias é o sentimento de pequenez que muitas pessoas adotam, quando o assunto é a diversidade, equidade e inclusão. 

  • “Mas isso é de responsabilidade dos gestores”;
  • “Nada na minha rotina é capaz de provocar as mudanças que necessitamos”;
  • “Eu sou apenas um simples estagiárie”;
  • “Eu não tenho poder pra isso”; 
  • “Isso é muito pequeno e não resolverá nada”.

Estas são algumas das muitas frases que habitualmente estou acostumado a ouvir. E digo mais, todas estas frases e muitas outras similares, representam, no final das contas, o desconforto que o tema nos provoca, a nossa resistência em mantermos a nossa zona de conforto, sem encarar o nosso medo de trilhar novos caminhos em busca de soluções efetivas.

Costumo ver o mundo como um grande tabuleiro de xadrez. E se o meu olhar se estreitar ainda mais e eu aplicar a temática da diversidade, equidade e inclusão nesta analogia, tudo o que estou dizendo fará ainda mais sentido. Querem ver? Então vamos lá.

Primeiramente e de maneira muitíssimo breve, vamos entender as origens e a popularização do jogo. Ele surgiu na Índia no século VI, e chegou à China e à Pérsia pelas rotas comerciais, mas foi popularizado pelos árabes, quando invadiram o norte da África no século VII e depois quando ocuparam Espanha e Portugal entre 711 e 1492.  

Para aquelas pessoas que conhecem um pouco sobre a prática do jogo, talvez o exemplo ajude mais do que aqueles que o desconhecem, mas não é nada complexo e explicarei aqui para vocês.

Neste jogo, existem peças mais e menos poderosas. Cito como exemplo a rainha, a mais potente de todas elas, pois possui a habilidade de andar em qualquer direção e sem limites de casas. Em oposição a esta potência toda, temos os peões, que são as menores peças que ficam à frente de todas as outras mais poderosas. Eles estão limitados a caminhar apenas para frente, uma casa por vez (com uma única exceção que é a possibilidade de caminhar duas casas em sua primeira movimentação, caso o jogador assim deseje).

Fundo amarelo com peças de xadrez pretas no canto esquerdo da imagem
Foto de Carolina Grabowska do Pexels

Se olharmos para o mundo e para o universo corporativo, a maioria das pessoas ocupam posições de baixo escalão e subordinação dentro das hierarquias organizacionais. Falamos de uma minoria que ocupa cargos de gerência, diretoria, presidência e altas lideranças. Em todas as esferas organizacionais, a predominância é sempre do pessoal operacional de baixo escalão, ou seja, no final das contas, por mais que nosso sonho de consumo seja escalar e atingir o topo da pirâmide, isso sempre será espaço para uma minoria. 

Mas calma aí. Eu não quero desestimular ninguém com esta fala. Muito pelo contrário. Devemos continuar com nossas ambições e buscas por melhoria individual. O que eu quero destacar com esta afirmação, é que o mundo se movimenta e é construído pelas mãos dos seres comuns, que as transformações sociais só ocorrem de fato, se a massa de indivíduos comuns assumirem as rédeas dos objetivos muitas vezes traçados estrategicamente por poucos. 

Ou seja, se a maioria das pessoas não comprarem uma ideia, se não abraçarem um ideal ou se não acreditarem ou forem educadas para algo, as transformações não ocorrem. E é justamente por entender este movimento das sociedades humanas, que refuto a todas aquelas justificativas que citei acima e que tanto estou acostumado a ouvir.

Esqueça a sua baixa hierarquia. Ignore a existência de muitas posições acima da sua dentro da organização. Você é capaz de transformar e promover uma imensa revolução a partir daquilo que você é, e da posição que você ocupa em seu meio. 

Você e outras pessoas até podem te classificar como um peão dentro deste imenso tabuleiro de xadrez que é a nossa sociedade, mas lembre-se que neste jogo, o peão é a ÚNICA peça que ao atingir a última linha do campo do oponente, é capaz de transformar-se em rainha – a peça mais poderosa do jogo.

Gosto muito desta analogia, pois pra mim ela faz todo o sentido. Talvez pela minha paixão pelo xadrez, ou pela minha fé, esperança e crença de que os seres humanos podem melhorar e encontrar soluções humanizadas para os seus problemas, não sei ao certo. Só sei que gosto de pensar desta forma. 

Duas pessoas jogando xadrez, sendo uma negra e outra branca, simulando a ideia de diversidade corporativa na estratégia
Foto de William Fortunato do Pexels

Por este motivo, quando analiso este campo estratégico que é o universo da diversidade, equidade e Inclusão, eu te pergunto: Você sabe de fato qual é o seu papel e a sua posição neste imenso tabuleiro social?  Consegue pensar estrategicamente a sua posição pessoal e profissional neste jogo? Compreende qual é a contribuição e responsabilidade que lhe cabe dentro de cada pequeno ou grande passo que se dá nesta partida? 

Em um jogo de xadrez, a nossa habilidade é medida quando conseguimos enxergar não apenas aquilo que desejamos com a nossa jogada, mas principalmente, quando adquirimos a habilidade de compreender qual é a jogada e intenção de nosso oponente. 

Nossa habilidade é testada quando conseguimos identificar que uma de suas jogadas é um blefe, quando não nos empolgamos com alguma peça que nosso oponente nos oferece voluntariamente para ser abatida e fazemos a leitura de sua intencionalidade e assim por diante. 

Em um jogo de xadrez, a estratégia é tudo, e possuir um olhar apurado para o futuro com a capacidade de prever uma, duas, três, quatro ou mais jogadas à frente, sempre fará toda a diferença no resultado final da partida.

Quando iniciamos no jogo de xadrez, uma das primeiras lições que precisamos aprender é que cada peça movimentada ou cada casa avançada, resulta em muitas consequências. Sendo assim, pensando nessa nossa grande partida de xadrez da diversidade, equidade e inclusão, onde todos possuímos uma posição e somos uma peça deste tabuleiro, quais os movimentos que estamos promovendo quando nos deslocamos em direção aos nossos objetivos?  

Estamos sendo estratégiques de fato ou estamos nos movimentando sem pensar nas consequências e apenas preocupades em garantir a nossa zona de conforto?

Peças de xadrez com fundo desfocado.
Foto de George Becker do Pexels

As peças do xadrez não significam nada individualmente. Nem a mais poderosa delas (rainha) é capaz de vencer uma partida se não tiver o apoio de seus peões, bispos, torres e cavalos. Um rei (a mais frágil das peças), só sai vitorioso, se todas as suas peças forem movimentadas pensando em um objetivo comum: a vitória de sua equipe e não a sua individual.

E você gestor (estrategista)? Tem pensado os seus movimentos dentro do seu ambiente organizacional a partir do viés da diversidade, equidade e inclusão? E já havia relacionado este desafio com o jogo Shaturanga? (Xadrez – que significa “Os quatro elementos de um exército” em Sânscrito). 

Você tem utilizado os seus Cavalos para conseguir saltar sobre os obstáculos que o mundo contemporâneo te apresenta na rotina organizacional? Tem conseguido transversalizar as particularidades de grupos distintos dentro do seu ambiente de trabalho com os seus Bispos? E as suas Torres? Você tem conseguido utilizá-las de fato para bloquear e eliminar avanços e propagações de hábitos nocivos? E os seus Peões? Eles estão sendo posicionados de maneira estratégica para afastar, inibir e até eliminar as mazelas que impedem você e a sua organização de atingirem os objetivos desejados?

Todas as vezes que ouço as famigeradas afirmações de pequenez e de resistência de gestores, líderes e outros colaboradores de uma organização, eu respiro fundo e penso no quanto falta para analisarmos de maneira estratégica e responsável tudo isso. E vejo também que não é mais possível permanecermos assim, pois para uma grande parcela da população e das organizações, este olhar já foi adotado, e o seu caminhar já foi estrategicamente pensado antes que qualquer passo seja dado.

Tabuleiro de xardrez com destaque para um peão com coroa dourada.
Foto de Pixabay do Pexels.

Então eu deixo aqui uma pergunta a você gestor e organização que ainda não entenderam bem o que o mundo contemporâneo está exigindo. Vocês tem mesmo certeza de que desejam continuar se movimentando de maneira inconsequente e sem analisar todos os impactos negativos que no futuro surgirão? Irão delegar uma responsabilidade que é de vocês para outres, assim como fez o Twitter?

E para você que se considera peão, lembre-se de que esta posição no tabuleiro é apenas uma condição transitória e não uma marca indelével, pois se você colocar em prática a estratégia correta, é bem provável que no futuro o peão transforme-se em rainha e conduza você e a sua equipe aos bons resultados e sucesso desta partida.


Divagando é uma coluna voltada a criar pontes entre o cotidiano e o universo corporativo, criando diálogos e suscitando reflexões.

Viny Belizario é sócio da Diva Inclusive Solutions, pesquisador, educador, formador de gestores, analista comportamental, psicanalista em formação e consultor em diversidade, equidade e inclusão há quase 20 anos. Raça, gênero, psicologia e pedagogia corporativa são suas áreas de pesquisa e interesse, onde apoia suas práticas para a transformação da cultura organizacional.