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NOTAS DO DIÁRIO: INÍCIO DO HACKEAMENTO CORPÓREO

NOTAS DO DIÁRIO: INÍCIO DO HACKEAMENTO CORPÓREO

Por Duda

TEMPO DE LEITURA: 4 MINUTOS

Domingo, 18 Abril, 2021.

Decidi iniciar minha hormonização em um domingo, pelo simbolismo. Nasci em um domingo, às 1h50 da madrugada no único hospital de Concórdia, SC. Hoje, inicio outro renascimento confinada em um apartamento, com dois gatos e muitas plantas, em São Paulo, durante mais um lockdown na pandemia sem fim que se dá no mundo, mas que tem desgosto especial no Brasil.

Meus medos, inicialmente, se deram – e se dão – em torno da saúde. Minhas leituras, interações com outras pessoas trans que vivenciam a hormonização feminina e a redução dos índices de testosterona, me levaram à uma paranóia talvez corriqueira para pessoas que decidem se submeter à essa intervenção.

Meu histórico de problemas no fígado está sendo uma preocupação especial durante a pré hormonização e agora que a inicio. Serão dois meses de teste, utilizando um bloqueador de testosterona chamado Acetato de Ciproterona (50mg por dia), o qual irei ingerir todas as manhãs logo após o desjejum, e o hormônio feminino, chamado Natifa (estradiol 1mg), que tomarei também todas as manhãs, a partir do 10º dia de ingestão do bloqueador de testosterona.

Sinto que meus sentimentos transitam por diferentes lugares, quase como quem pula de um bungee jump ou pára-quedas, onde o medo da morte e a excitação por novos disparos químicos em nosso cérebro efervescem dentro do mesmo corpo. Me sinto animada com as possibilidades, mas receosa do que possa me acontecer, no sentido de efeitos colaterais.

Meu interesse, além das transformações físicas que essa intervenção promete, é a produção de subjetividades a partir de uma tecnologia que me permite perceber gênero, também, a partir de uma questão química. Sinto como se estivesse diante de uma situação que me oferece uma desconexão mais contundente do universo masculino, mais especificamente, da masculinidade tóxica, o que foi uma força opressora e violenta na minha vida. É como se, agora, além de conceitualmente, eu me proporcione uma negação e um descolamento da masculinidade a partir de uma perspectiva química e farmacológica. Como se meu corpo político, agora, se conectasse à uma estrutura de pensamento ainda maior, que é a de performance e análise social a partir de uma perspectiva medicamentosa.

De um lado, passei a vida me sentindo empurrada a performar uma masculinidade que parecia não pertencer, em nenhum nível, à estrutura que me compunha enquanto ser. Do outro, uma necessidade de me proteger a partir de uma suposta invisibilidade que nasceria dessa performance. O fato é que, performar essa masculinidade, nunca me blindou das violências mais estruturais em torno de sexualidade (gênero nem era uma questão, na época) e das premissas da normatividade em torno de um corpo masculino.

Nunca deixei de apanhar, de ser humilhada, nem de passar por constrangimentos e vexames nas minhas interações sociais. Agora, me sinto diante de uma tecnologia que me permite um rompimento mais contundente desse universo que representou inadequação, vergonha, culpa e sofrimento. É a possibilidade de entender o que nasce desse descolamento que, agora, conta com um aparato químico no meu corpo, além das minhas ideias e do corpo político que venho construindo ao longo dos anos.

A dissidência de meu corpo, agora, deve ultrapassar ainda mais questões conceituais para acentuar questões físicas, visíveis e que criam novas possíveis pontes com a transfobia. No entanto, também me traz capital subjetivo para hackear espaços que transito com mais profundidade, nuances e multidimensionalidade. Assim espero.

Não sei se é placebo ou algum efeito da primeira  dose de bloqueador de testosterona, mas me sinto meio drogada, com uma sensação diferente no corpo, como se tivesse consumido, de leve, algum cogumelo mágico. A percepção de luz está um pouco diferente e a sensação no corpo é estranha. Sinto meus sentidos aguçando. Não sei explicar.


Composição da imagem: Duda Teo.


Transe é uma coluna dedicada a concentrar reflexões e vivências pessoais em torno de minha transição de gênero. É um compilado de questões identitárias com costuras sobre problemas estruturais, sistemas de controle social, perversidades do patriarcado neoliberal e descolonização da organização social e dos corpos. Em suma, uma galeria de pensamentos que nos provoquem reflexões rumo à uma nova consciência.

Duda Téo é sócia da Diva Inclusive Solutions, responsável por design e comunicação. É designer gráfica, artivista visual, comunicadora, travesti e vegana. Há mais de 25 anos no mercado de comunicação e design. Militante das causas trans e travestis.