Diversidade

OS MUNDOS DENTRO DO UNIVERSO LGBT+

OS MUNDOS DENTRO DO UNIVERSO LGBT+

Por Marcelo Téo

TEMPO DE LEITURA: 12 MINUTOS

Sempre que se fala em “comunidades LGBT+”, o que vem à sua cabeça? Bandeiras de arco-íris? Homens fortes e bonitos dançando numa parada gay? Mulheres de cabelo curto e roupas masculinas? Drag queens maquiadas usando roupas brilhantes e perucas extravagantes? Recentemente a proposta as deputadas Marta Costa (PSD) e Janaína Paschoal (PSL) encaminharam um projeto de lei para proibir a presença de pessoas LGBT+ na publicidade (PL504/2020), sob o argumento de que “traria real desconforto emocional a inúmeras famílias, além de estabelecer prática não adequada a crianças”. Ações descabidas e violentas como essa são parte de uma estrutura dedicada a excluir pessoas LGBT+. Este artigo apresenta algumas ideias para compreender melhor a diversidade que mora dentro da sigla LGBT+.

Para além dos estereótipos mais reproduzidos – na publicidade, nas celebradas campanhas pró-diversidade, nos conteúdos genéricos sobre o tema etc. –, o universo LGBT+ é composto por um mosaico extremamente complexo de configurações e formas de existência. E muito embora exista uma bandeira comum, os problemas enfrentados nos seus diversos segmentos são muito diferentes. A ideia aqui é abrir esse armário, tentar extrair as gavetas e prateleiras e lançar ideias para pensarmos juntes numa estrutura mais fluida e acolhedora, que nos permita perceber a comunidade LGBT+ com mais profundidade.

A sigla

A sigla “LGBT” tem uma história intimamente ligada às lutas por direitos, por visibilidade, por sobrevivência e por existência. Longe de ser um aglomerado aleatório de letras, essa sigla congrega as experiências dos corpos, dos desejos variados e das sexualidades construídas como dissidentes daquilo que se quis como “normal”. 

Para Fábio Feltrin, referência nos estudos da comunidade LGBT no Brasil, “a expansão do número de letras nada mais é do que o efeito dessas tantas lutas e a afirmação da potência de ser, de experimentar e de expandir os limites coercitivamente impostos ao gênero, ao corpo e à sexualidade”. Fábio chama a atenção para a importância da aliança que a sigla LGBT representa: “Ela agrupa essa multidão de seres cujas existências foram e são muitas vezes marcadas pelo signo da abjeção e da desumanização. 

Esses corpos ‘fora do lugar’ estão à mercê de uma quantidade variada de violências e precisaram dessa organização para sobreviver. Por isso gosto de lembrar que as ‘identidades’ são sempre circunscritas ao campo da política e das lutas e são bons pontos de partida, mas não são bons pontos de chegada porque não cabemos nessas ‘caixas fechadas’. A história mostra que o desejo, o corpo e o sexo são invenções cheias de surpresas”.

A heteronormatividade

Em outro artigo, falamos que o maior combustível do racismo é a branquitude. No caso da LGBTfobia, é a heteronormatividade, uma construção excludente e perigosa que precisa ser discutida.

Isso que chamamos hoje de heterossexualidade, sobretudo a masculina, não nasceu espontaneamente, mas foi efeito de um conjunto de concepções singulares forjadas ao longo do século XIX. E, segundo Fábio Feltrin, não há registro na História de algo parecido com isso. “A reprodução desse modelo, e sua fantasia compulsória, ocorre por conta de variadas operações que podemos chamar de ritualísticas, na medida em que os códigos socialmente reconhecidos como ‘coisa de homem’ são naturalizados. O aparecimento dessa condição criou, ao mesmo tempo, o seu oposto. A construção do ‘outro’ se dá através da construção de um ‘eu’ hierarquicamente superior”.


O que seria esse “outro”, esse oposto da masculinidade heterossexual? Segundo Feltrin, tudo aquilo que rompa com essa norma, ou seja, “gays, lésbicas, pessoas trans, corpos mais fluidos e que não performatizam o estereótipo de ‘macho alfa’. Mas esse conjunto de sujeitos têm algo em comum: os traços de feminilidade. Não é à toa que gays afeminados são mais hostilizados e estão mais vulneráveis e que as pessoas trans, por romperem de modo ainda mais radical com o padrão, sejam assassinadas barbaramente todos os dias”.

A estrutura misógina da sociedade ocidental está na base da construção dessa masculinidade. Problematizar e romper com esse padrão pode ser libertador, inclusive para os homens héteros”.

FÁBIO FELTRIN – PESQUISADOR DAS TEMÁTICAS LGBT+

Sexo, gênero e sexualidade

Muito da incompreensão lançada aos indivíduos que não se enquadram nos padrões da heteronormatividade é proveniente do desconhecimento acerca das nuances que caracterizam as diferenças e que constituem a pluralidade de formas de existência no âmbito das identidades de gênero e da sexualidade. Você compreende as diferenças entre sexo, gênero e sexualidade?


O sexo diz respeito às diferenças anatômicas e biológicas entre homens e mulheres: genitálias, aparelho reprodutivo etc. Temos, assim, pessoas do sexo feminino, do sexo masculino e pessoas intersexuais (casos em que existem genitais ambíguos ou ausentes). 

O gênero, por sua vez, designa a construção social do sexo biológico. Apesar das sociedades ocidentais definirem as pessoas como homens ou mulheres desde seu nascimento, com base em suas características físicas, diversas disciplinas têm mostrado que o gênero se refere à organização social da relação entre os sexos e expressa que homens e mulheres são produtos do contexto social e histórico e não resultado da anatomia de seus corpos. As representações de gênero variam de uma cultura para outra. Entender essa diversidade de expressões é fundamental para desnaturalizarmos padrões e acolhermos a diferença.

Existem, portanto, diversas formas de autoidentificação no que diz respeito ao gênero. A identidade de gênero é a forma pela qual cada indivíduo se percebe na relação com outros gêneros. Não depende, portanto, do sexo biológico. Essa identidade pode ser binária (homem ou mulher), ou não-binária, quando não há identificação com as possibilidades cabíveis na binariedade.

A sexualidade, por sua vez, diz respeito às nossas práticas eróticas, afetividades e desejos. Ela também varia de acordo com a cultura. Há uma hierarquia em nossa sociedade, na qual a heterossexualidade ocupa um posto de superioridade, colocando a homo e a bissexualidade numa condição socialmente inferior. A naturalização da heteronormatividade fortalece e reproduz as estruturas de poder e dominação vigentes, deixando à margem todos aqueles que, por escolha ou condição, não se encaixam num padrão cuja única função é excluir.

A força do feminino

Apesar da insegurança causada pelas atuais políticas e discursos do governo federal, os últimos anos representaram um despertar na luta por direitos de comunidades marginalizadas. E as mulheres têm sido vanguarda nesse processo de resistência e de transformação social. Mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres com deficiência, mulheres transgêneras, mulheres travestis, mulheres lésbicas: todas indispensáveis na luta em prol dos direitos das comunidades LGBT+. 


Mas a vida dessas mulheres não se resume ao ativismo. A soma de marcadores de opressão torna suas existências mais vulneráveis ao assédio, na rua, no trabalho, nos espaços de interação digital. A masculinidade, em sua versão tóxica, torna mulheres LGBT+ alvos da violência em variadas formas, que vão desde as relações cotidianas – a curiosidade indiscreta sobre sua vida sexual – até o estupro corretivo. Num mundo permeado pelo machismo, dominado por um sistema patriarcal, as mulheres situam-se em dois extremos: o da luta por direitos e o da suscetibilidade à violência machista, masculina, heterossexual. 

Recentemente o Google alterou a lógica de seus algoritmos para evitar a associação do termo “lésbica” a produtos da indústria pornográfica, em respeito à demandas populares.

É fundamental que pessoas heterossexuais, especialmente homens, se reinventem e aprendam a respeitar a complexidade e a diversidade dos desejos femininos.

Bissexualidade: a diferença é uma fonte, não um alvo


A bissexualidade é um conceito difícil. Para alguns, compreende duas formas de pulsão e afetividade: masculina e feminina. Mas muito tem se discutido sobre a inclusão do espectro não-binário, especificidade acolhida primeiramente pelo termo “pansexualidade”. Talvez a definição mais abrangente – e por isso polêmica – seja a que entende a bissexualidade como uma forma de atração independente do gênero. Numa sociedade guiada pela aparência e dependente de rótulos bem definidos, vidas indomáveis, incapazes de existir dentro de molduras rígidas, sofrem com o cerceamento de suas identidades, paixões e afetos. 

Pessoas bissexuais enfrentam a rejeição em múltiplas formas, seja por não se encaixarem nos códigos da heterossexualidade e da cisgeneridade ao sentirem atração por pessoas do mesmo sexo ou pessoas não-bináries, seja por extrapolarem o campo afetivo homossexual, sendo hostilizadas por supostamente estarem “em cima do muro”, serem promíscuas ou mal resolvidas com sua sexualidade. 

Compreender a vida para além da normatividade, superando as caixas da heteronormatividade, da cisgeneridade e da binariedade, é parte de um esforço para furar as bolhas. Ver a diferença como uma fonte e não como um alvo: eis um lindo desafio que gostaríamos de lançar a todes.

Ser travesti


Toda travesti é trans, mas nem toda trans é travesti. Travesti é um lugar próprio. Expressa sua feminilidade a partir do próprio filtro, sem compromisso com o fantasma da passabilidade cisgênera. Travesti é um posicionamento político, de enfrentamento da norma binária (homem / mulher) e vanguarda do movimento LGBT+. São as mães da não-binariedade e vanguarda na luta por direitos da comunidade.

No Brasil, a expectativa de vida de travestis e transexuais é de 35 anos, menos da metade da média nacional (75 anos).

As mortes majoritariamente violentas. Como se não bastassem as vidas ceifadas, seus corpos são profanados com requintes de crueldade. Menos de 10% dos casos são resolvidos. 

Mesmo diante das violências cotidianas e estruturais, as travestis continuam usando seus corpos como escudo e espada para afirmar a possibilidade de existir para além da norma.

Desafios da transgeneridade 

O direito à vida e ao amor, em teoria, são reconhecidos pela maioria de nós. Mas na prática muitas vidas deixam de receber o que lhes é de direito em função do preconceito e do apego aos rótulos normativos, cuja existência é parte de um sistema de dominação e exclusão. Da religião ao conservadorismo, o discurso é o da imposição da cisgeneridade como regra de comportamento e demonização de qualquer expressão que fuja dela.
 


A luta de pessoas trans pelo direito de viver fora da cisgeneridade é dolorosa, contínua, sem pausa. O drama da passabilidade (capacidade de uma pessoa trans ser percebida como cis) segue fazendo com que muitas pessoas alterem seus corpos em busca de aceitação. Procedimentos caros – e, muitas vezes, invasivos – como cirurgias plásticas, hormonizações, tratamentos à laser etc.,  podem levar a problemas de saúde física e psicológica. 

Sobre a não-binariedade

A não-binariedade é um espectro que abraça várias identidades de gênero que não se encaixam unicamente no feminino e no masculino. Pessoas não-binárias, por estarem em inconformidade com seu gênero de nascimento, são representadas pela sigla T, da trasngeneridade. 

O movimento trans passa a ganhar novas discussões a partir da não binariedade, numa desconstrução ainda maior dos gêneros binários (desconstrução protagonizada pelas travestis e pelas manas pocs), lutando pelo direito de viver a vida de acordo com seus sentimentos mais íntegros, sem a obrigação de passar por alterações físicas bruscas em nome da passabilidade. A luta se dá para que cada pessoa possa expressar seu feminino e seu masculino dentro das próprias possibilidades e dos próprios desejos, respeitando a condição de indivíduo único que cada ser humano tem como direito.

Hoje, a não binariedade passa por muitas formas de violência, dentro e fora da comunidade LGBT+, a até na comunidade trans. Se trata de um não-lugar que representa o que há de mais genuíno enquanto grito pela liberdade de ser aquilo que se é, de viver a vida pelas próprias lentes e não a partir daquilo que a sociedade dita como norma. É a vida que pulsa a partir de um grito interior. E que deve florescer apesar das pressões normativas que vêm de fora.

Foto de Delia Giandeini

Direitos básicos, como a possibilidade de uma linguagem não binária ou o uso de banheiros em locais públicos, podem parecer insignificantes para quem nunca enfrentou a exclusão nesses níveis. Mas são absolutamente essenciais ao acolhimento de pessoas fora do eixo cisgênero e da binariedade. E não devem ser reivindicados apenas por elus. Mas por todes nós. Os ataques e ações de exclusão à diversidade de gênero, que acontecem inclusive dentro das comunidades LGBT+, revelam mais sobre quem ataca do que sobre quem é atacade, pois denunciam a violência que nasce no cárcere invisível que emoldura suas próprias vidas.

O (des)conforto da linguagem: por uma gramática plural

A não-binariedade têm provocado questionamentos que extrapolam o campo dos debates de gênero e sexualidade. Um dos muitos desafios da não-binariedade é a incorporação do que muitos têm chamado de “gramática neutra”. Talvez o rótulo de gramática inclusiva não-binária seja mais apropriado, já que não há neutralidade nessa opção. Há sim uma carga política que não apenas reivindica direitos às pessoas não binárias como também renega o sexismo linguístico que masculiniza as narrativas e apaga a feminilidade.

Aceitar a gramática inclusiva não-binária é uma declaração importante: Eu me importo, eu acolho, eu me levanto, eu resisto. E faço tudo isso porque compreendo. Conhecer a diversidade é aprender o respeito. E demonstrar esse respeito no cotidiano é uma forma de viralizar o seu valor.

Quer saber mais sobre o assunto? Conheça nosso projeto Diva Todes. E responda nossa pesquisa sobre o tema aqui.

Velhice LGBT+

Para os povos originários, a velhice é o tempo da sabedoria. Mas na sociedade ocidental, não é fácil envelhecer. A supervalorização da juventude e a lógica do mercado tornam a velhice um fardo. E quando falamos em comunidades LGBT+, a situação é ainda mais difícil. A repressão que marca as vidas LGBT+ resulta numa insegurança que acentua a rejeição ao envelhecimento, tornando-o mais pesado e dolorido, sobretudo pelo medo da solidão. Mas também pela escassez de possibilidades de sustento. A exclusão é um monstro de múltiplos tentáculos. Envelhecer e ser parte do universo LGBT+ significa estar suscetível ao somatório destas forças que atuam para sufocar a vida e a dignidade.

Foto de Cottonbro.

No universo trans, a expectativa de vida é muito baixa. Envelhecer, nesse cenário, já é uma vitória. A grande maioria da população trans não tem acesso a planos de aposentadoria, e isso torna o envelhecimento ainda mais doloroso. É comum o exílio em asilos, por vezes restritos ao gênero abandonado, ou a “volta para o armário”, na busca por subempregos que possibilitem a sobrevivência autônoma, mesmo que às custas de abandonar a própria identidade.

Um primeiro passo é procurar saber pelo que lutam as pessoas que integram a comunidade LGBT+. Mergulhar na realidade ciente de que ela é diversa e de que essa diversidade nos faz bem é um caminho sem volta. O segundo passo acontece na própria trilha, quando tomamos parte das lutas, deixamos de aceitar a homofobia, desde as práticas recreativas como piadas e pequenos julgamentos, até as violências mais absurdas. 


Break the bubble.
Diva. United by difference.

Marcelo Téo é co-fundador da Diva Inclusive Solutions, pesquisador, educador, produtor de conteúdo, músico e pai. Suas pesquisas dentro e fora do âmbito acadêmico estão voltadas para o consumo narrativo e o papel da diversidade de histórias no desenvolvimento da empatia.